MUDANÇA DE ESTRUTURAS

Em uma de suas mensagens, o Papa João Paulo II assinalou: “O pensamento social e a prática social, inspirados pelo Evangelho, devem ser sempre marcados por uma sensibilidade especial em relação às pessoas que mais sofrem, que são extremamente pobres, em relação a quem padece toda classe de males físicos, mentais e morais que afetam a humanidade, incluindo a fome, a falta de quem possa cuidar deles, o desemprego e o desespero... também deverão procurar as razões estruturais que fomentam ou causam as diferentes formas de pobreza no mundo, a fim de podermos aplicar os remédios apropriados”.

Pensar de forma estrutural não é algo que nos ocorra facilmente. Requer-se uma compreensão informada das verdadeiras circunstâncias dos Pobres, uma análise feita com paciência e uma busca disciplinada para encontrar soluções. Além disto, a mudança estrutural exige diálogo, ação em colaboração e perseverança. Mas sem um pensamento estrutural e uma mudança estrutural, as raízes das causas da pobreza permanecem profundamente fincadas na sociedade, mesmo se alguns dos programas tiverem tido êxito para aliviar alguns dos smas da pobreza.

Com isto em mente, em anos recentes a Família Vicentina tem dirigido seus esforços com maior freqüência para mudar as estruturas. É claro que, numa Família como a nossa, dar um serviço imediato e trabalhar para o mudança de estruturas não implica em excluir uma coisa da outra. Ambas constituem um imperativo. É importante, para nós, trabalhar para conhecer as necessidades imediatas dos Pobres. Por outra parte, é da máxima importância que também promovamos mudanças a longo prazo. No curso dos dois últimos anos, deram-se passos importantes neste sentido.


I. ANTECEDENTES

Em 2006, animado e apoiado por uma fundação, o Superior Geral da Congregação da Missão, Pe. Gregory Gay, nomeou uma Comissão para a Promoção da Mudança de Estruturas e lhe deu o seguinte mandato: “contribuir para realizar uma mudança de estruturas através do apostolado dos membros da Família Vicentina, especialmente daqueles cujo ministério é servir os Pobres oprimidos”.

São estes os membros dessa comissão: Irmã Ellen Flynn, FC, diretora de “The Passage” (“A Passagem”), um projeto polivalente para ajudar a reabilitar as pessoas que vivem nas ruas de Londres; o Pe. Norberto Carcellar, CM, fundador do projeto de Payatas, da Província das Filipinas, e dos subseqüentes projetos de construção de moradias e de microcréditos em Manila e em muitos outros lugares das Filipinas e de outros países asiáticos; o Pe. Pedro Opeka, CM, fundador e diretor de Akamasoa (“Bons Amigos”) e da construção de mais 17 povoados para aqueles que antes viviam nos lixões em Madagascar; o Pe. Robert P. Maloney, CM, coordenador de um projeto em que colaboram a Comunidade de Santo Egídio e as Filhas da Caridade, o projeto DREAM, cujo objetivo é combater a AIDS, especialmente na África; o Pe. Joseph P. Foley, CM, representante da Congregação da Missão como ONG na ONU; a Sra. Patricia Nava, Representante da AIC para as relações com a Família Vicentina Internacional; e o Sr. Gene Smith (SSVP), Diretor Executivo do Instituto Seton em Daly, Califórnia.

Cada ano, durante sua reunião anual, os Responsáveis pelos vários ramos da Família Vicentina escolhem em comum um tema de reflexão a fim de decidir as ações a realizar no ano seguinte. O tema é lançado no dia 27 de setembro, Dia de Oração da Família. Em 2006, a reflexão girou em torno da criatividade. O desafio principal foi tornar efetivas e vivas as palavras de São Vicente: “O amor é inventivo até o infinito”.

Este ano, os Responsáveis da Família, reunidos em Roma, convidaram os membros da Comissão para Promover a Mudança de Estruturas para apresentarem seu trabalho. Por causa disso, a “mudança de estruturas” foi escolhida como o enfoque orientador da Família pelo menos durante os dois próximos anos (2007-2009).


II. OS OBJETIVOS DA COMISSÃO E O TRABALHO REALIZADO ATÉ AGORA

1. Objetivos

Quando o Conselho Geral nomeou os membros da Comissão, pediu-lhes:

• que estudassem o material disponível relativo à mudança de estruturas

• que discutissem nossa própria participação na mudança de estruturas

• que formulassem uma série de recomendações ou “melhores práticas” (estratégias efetivas) que em seguida seriam partilhadas com os membros da Família Vicentina

• que propusessem a forma como essas estratégias efetivas poderiam chegar do melhor modo ao conhecimento dos membros da Família Vicentina em todo o mundo.

2. O que se fez até o momento

Para responder a este mandato, a Comissão começou a refletir sobre a mudança de estruturas e sobre a forma de compartilhar os resultados de seu trabalho. No início do processo, cada um dos membros da Comissão escreveu uma história, baseada em sua própria experiência, na qual a mudança de estruturas foi levada a cabo. Em cada uma das histórias apresentadas, a Comissão identificou algumas estratégias que podem ser utilizadas no trabalho para alcançar a mudança de estruturas nos projetos com os Pobres. Deu-se uma ênfase particular aos projetos de autoajuda e aos projetos auto-sustentáveis, para que os próprios Pobres sejam participantes ativos no planejamento e na ução dos projetos previstos. A Comissão deu grande importância à espiritualidade que ilumina o processo de engajamento da Família Vicentina na mudança de estruturas.

Ao mesmo tempo a Comissão tem trabalhado nas diversas formas de comunicar seu trabalho:
• um livro intitulado “Sementes de esperança / histórias de mudanças de estruturas”, que será publicado em várias línguas e distribuído em todo o mundo;
• uma caixa de “ferramentas” práticas (Tool Kit): que conterá folhetos, documentos curtos, DVDs, propostas para grupos de estudos, etc.;
• uma edição especial de Vincentiana ou de outras publicações;
• cursos, seminários e trabalhos de grupos para líderes ou agentes multiplicadores;
• propostas para promover uma melhor administração do dinheiro, entre nós e entre os Pobres a quem servimos, com a finalidade de solucionar as raízes que são causas da pobreza.

III. UMA APROXIMAÇÃO À MUDANÇA DE ESTRUTURAS

A. Alguns esclarecimentos sobre a noção de mudança de estruturas

A mudança de estruturas não pretende servir apenas para solucionar as necessidades imediatas dos Pobres (proporcionando alimentos, roupa, etc.), mas também como ajuda para que os Pobres desenvolvam estratégias efetivas para poder sair da pobreza. O conceito de “mudança de estruturas” não deve ser confundido com “a mudança sistemática” (isto é, mudanças planejadas passo a passo). A “mudança sistemática” pode ter resultados muito positivos, mas “a mudança de estruturas” vai mais longe. Pretende mudar estruturas complexas que, em sua totalidade formam o sistema social dentro do qual vivemos.
Um sistema funciona como um todo através da interação de suas partes. Os elementos do sistema se mantêm juntos e se afetam mutuamente, tanto para o bem como para o mal. O desemprego e os salários baixos, a moradia inadqueada, uma dieta malsã, cuidados deficientes da saúde e baixa qualidade da educação costumam não ser problemas isolados, mas problemas intimamente ligados entre si. A mudança de estruturas pretende transformar uma série completa de elementos que interagem, e não só alguns deles. Isto requer mudar as atitudes que causam o problema que esperamos resolver. Uma aproximação ao sistema oferece “ferramentas” para interpretar nossa experiência, insistindo sobretudo nas relações entre os elementos do sistema. É um processo que favorece uma mudança estrutural em todo um sistema. Basicamente, o pensamento sistêmico nos ajuda, segundo as palavras atribuídas a Albert Einstein, a “aprender a ver o mundo de maneira diferente”.

EXEMPLO: “O Perfeito Furacão”

Podemos ilustrar este processo com “O Perfeito Furacão”, uma das histórias de mudanças de estruturas, apresentada por Gene Smith, da Sociedade de São Vicente de Paulo, dos Estados Unidos. Gene relata o que aconteceu em San José de Ocoa. O projeto começou dando uma atenção particular à falta de agua, mas gradualmente passou a levar em consideração muitos outros elementos da vida da comunidade. Gene relata a história da seguinte maneira:

Nesta comunidade, ocorreu uma mudança de estruturas, quando, graças a um líder de visão abrangente, vários elementos positivos interagiram e deram como resultado uma comunidade transformada. Um “perfeito furacão” de esforços conjuntos e de acontecimentos transformou a vida de muitas pessoas pobres.

Tradicionalmente, os irmanamentos na Sociedade de São Vicente de Paulo se concretizam de uma Conferência a outra, de forma que os membros dos países pobres possam proporcionar ajuda direta a algumas das pessoas mais necessitadas. Jack, o líder, teve a idéia criativa de fazer “irmanamentos em cascata” pelos quais um número significativo de Conferências e Conselhos nos Estados Unidos enviassem apoio econômico ao projeto, através da Conferência de San José de Ocoa, e em seguida a outras novas Conferências na República Dominicana.

Em pouco tempo, elevadas somas foram enviadas para comprar os equipamentos necessários para construir os aquedutos e adquirir os canos para a água. Formaram-se brigadas de trabalho de gente procedente de diversos povoados. Quando Jack voltou a San José de Ocoa, não podia crer no que estava vendo. Tudo estava verde e o sistema de água havia crescido. Observou como os povoados se ajudavam entre si. Produziu-se um efeito global.

O excelente trabalho levou a outros projetos derivados:
• um aqueduto e trabalhos de irrigação;
• plantas para a purificação daágua;
• provisão de água potável privada para que fosse compartilhada;
• troca de tetos e pisos em más condições;
• criação de hortas ao lado das casas para obter alimentos nutritivos;
• cooperativas agrícolas;
• latrinas para promover a saúde;
• construção de casas...

Atualmente há água encanada em mais de cem povoados. Ao levar a água às vilas, a alimentação e a saúde melhoraram, criaram-se oportunidades de emprego e as comunidades se aproximaram mais umas das outras.

B. A Espiritualidade que está na base da mudança de estruturas

“Mudança de estruturas” é um conceito contemporâneo. No tempo de São Vicente não era conhecido, mesmo se o próprio São Vicente expressou muitas idéias relacionadas com isso. Quando reuniu o primeiro grupo de mulheres para formar uma “Confraria de Caridade”, em Châtillon-les-Dombes, em novembro de 1617, declarou, no Regulamento que escreveu para elas (SV XII, 423; SVP.ES XIII, 574) que às vezes os Pobres sofrem mais por falta de “ordem” que por falta de pessoas caridosas. Continuou animando seus seguidores a examinarem os vários elementos da vida dos Pobres, para conhecer suas necessidades mais importantes: alimentação, cuidados de saúde, educação, trabalho, formação espiritual, etc. Hoje em dia, temos consciência de que os Pobres vivem dentro de um sistema social em que muitos destes elementos não existem, num sistema que, se for mudado, pode ajudar as pessoas a sair da pobreza.
Há três frases-chaves na tradição vicentina, que concretamente nos impelem a fazer mais e mais em nossos diferentes ramos, não só para ajudar os Pobres em suas necessidades mais imediatas, proporcionando-lhes comida, roupa e moradia, mas também para ajudá-los a mudar o sistema social em que vivem, para saírem da pobreza.

A primeira frase é que nosso amor deve ser “afetivo e efetivo”[1]. São Vicente repetiu isso mais de uma vez. Ou disse, por exemplo: “O amor de uma Filha da Caridade não é só terno; é efetivo, porque elas servem os Pobres de maneira concreta”[2].

A segunda frase é que devemos servir os Pobres “espiritual e corporalmente”[3]. São Vicente utiliza esta frase ao falar a cada um dos grupos que fundou: as Confrarias da Caridade, a Congregação da Missão e as Filhas da Caridade. Diz às Filhas da Caridade que não só devem atender às necessidades corporais dos Pobres, mas que devem compartilhar sua fé, através de seu testemunho e de suas palavras. Por outra parte, São Vicente adverte os membros da Congregação da Missão de que não devem pensar em sua Missão em termos exclusivamente espirituais[4], mas cuidar também dos doentes, dos órfãos, dos loucos, inclusive dos mais abandonados[5].

A terceira frase é que devemos proclamar a boa nova com “palavras e obras”. São Vicente estava profundamente convencido de que o que dizemos e fazemos deve reforçar-se mutuamente. Primeiro, agir; depois, ensinar. Esta é a regra de São Vicente para uma evangelização “efetiva”. Em outras palavras, São Vicente considera que a palavra, o ensino e a promoção humana são complementares entre si e são parte integral do processo evangelizador. Nos dias de hoje, a unidade entre a evangelização e a promoção humana, tão importantes para São Vicente, é uma das ênfases principais entre os ensinamentos da doutrina social da Igreja[6].

À luz destas frases, tão fundamentais na espiritualidade de nossa Família, a Comissão procurou responder concretamente ao chamado do Papa João Paulo II, dirigido à Assembléia Geral da Congregação da Missão em 1986: “Mais que nunca, com audácia, humildade e competência, buscai as causas da pobreza e procurai soluções a curto e longo prazo, soluções concretas, flexíveis e eficazes. Fazendo isso, estareis contribuindo para a credibilidade do Evangelho e da Igreja”.

C. Estratégias efetivas e histórias para a mudança de estruturas

A Comissão dedicou uma importante quantidade de tempo à identificação das estratégias que produzem uma mudança efetiva de estruturas. Considera que estas estratégias são muito importantes, se não indispensáveis, para alcançar resultados de longo alcance na vida dos Pobres.

Para maior compreensão, as estratégias foram divididas em quatro categorias: estratégias orientadas à Missão, estratégias orientadas às tarefas, estratégias orientadas às pessoas e estratégias orientadas à co-responsabilidade, ao trabalho em redes e à ação política.
Com o fim de ilustrá-las, junto a cada grupo das estratégias estudadas a seguir, apresenta-se uma história de mudança de estruturas.

Estratégias orientadas à Missão (motivação e direção)

- Considerar a pobreza não como um resultado inevitável das circunstâncias, mas como produto de situações injustas que podem ser modificadas, centrando-se em ações que tendam a romper o círculo da pobreza;

- Traçar projetos, estratégias criativas, políticas e linhas de ação, que derivem de nossa Missão e dos valores cristãos e vicentinos;

- Evangelizar e inculturar os valores e o carisma vicentino, com um profundo respeito pela cultura local.

EXEMPLO: Akamasoa: “Cidade dos Bons Amigos”

Neste projeto, combinaram-se várias estratégias para a mudança, mas um fator fundamental foi sua fidelidade à Missão Vicentina. A história acontece nos arredores de Tananarive, capital de Madagascar. A pobreza dos que vivem nos depósitos de lixo é um verdadeiro escândalo e uma ameaça aos direitos humanos e é contrária à dignidade humana. Quando o Pe. Pedro Opeka, CM, chegou pela primeira vez a Madagascar, não podia acreditar que havia toda aquela miséria ao seu redor e se perguntou: Que se pode fazer pelas centenas de famílias que vivem em condições terríveis nos montões de lixo? Começou a buscar soluções com alguns dos membros da comunidade e juntos descobriram que trabalhar no corte de pedras poderia ser um bom ponto de partida.

Logo começaram a cortar grandes pedras retangulares, apropriadas para a construção. O trabalho das mulheres foi muito importante nesta etapa e continuou sendo em todas as formas possíveis. Com o dinheiro obtido, os trabalhadores compraram arroz e ferramentas para a construção civil. Assim puderam começar a levantar suas próprias casas.

Atualmente, estes primeiros assentamentos se tornaram verdadeiras comunidades urbanas, com todo tipo de serviços. Nos domingos, cerca de cinco ou seis mil pessoas se juntam para louvar o Senhor por tudo que receberam.

Nada disto teria sido possível sem uma forte disciplina individual, familiar e social, baseada na responsabilidade pessoal e numa fé muito firme na Providência. Conforme seu trabalho foi ficando conhecido no mundo inteiro, o projeto de Akamasoa se hestendeu a dezessete povoados, graças ao trabalho deles, à orientação e ao apoio do seu líder, Pe. Pedro, à Congregação da Missão e à ajuda generosa tanto de pessoas isoladas quanto de organizações internacionais.

Estratégias orientadas às tarefas (organização)

- Começar com uma análise séria da realidade local, partindo de datos concretos e elaborando cada projeto em torno à própria realidade;

- Ter uma visão global, para satisfazer uma série de necessidades humanas básicas - individuais e sociais, espirituais e físicas, especialmente trabalho, cuidados com a saúde, moradia, educação, crescimento espiritual -, dando um enfoque integral à prevenção e ao desenvolvimento sistentável;

- Implementar estratégias coerentes, começando modestamente, delegando tarefas e responsabilidades e proporcionando serviços de qualidade, em respeito à dignidade das pessoas;

- Sistematizar, institucionalizar e avaliar o projeto e sua realização, descrevendo indicadores observáveis e os resultados obtidos;

- Conseguir que o projeto seja auto-sustentável e garantir os recursos materiais e humanos para assegurar sua continuidade;

- Ser transparentes, convidando a participar na elaboração de orçamentos e comentando os relatórios financeiros com os participantes no projeto. Manter um estrito controle quanto ao manejo do dinheiro.

EXEMPLO: Federação de Pessoas Sem-Teto nas Filipinas

Quando se iniciou este projeto, vários ramos da Família Vicentina, os Padres da Missão, as Filhas da Caridade, a AIC, a SSVP e a Juventude Mariana começaram a trabalhar juntos em Payatas, nas favelas de Manila.

Depois de uma séria análise da realidade local, iniciaram um projeto global, para satisfazer as necessidades básicas das pessoas que trabalhavam no enorme lixão da capital. O elemento central que aglutinou toda a comunidade foi um programa de poupança, que trabalhava as 24 horas do dia, coordenado pelo Pe. Norberto Carcellar, CM.

Iniciou-se um proceso contínuo de formação com o fim de fortalecer os Pobres, para que se tornassem os principais agentes de seu próprio desenvolvimento. De um simples programa de poupança e de empréstimos em Payatas, o trabalho da Federação de Pessoas Sem-Teto das Filipinas conseguiu mobilizar assentamentos urbanos informais e favelas ao redor de moradias e de questões de propriedade da terra. No caso de desastres naturais, a Federação dá ajuda e apoio tanto a seus membros como aos pobres entre os mais pobres.
Conforme crescia o trabalho, a Federação dos Sem-Teto foi encontrando sócios e colaboradores entre vários acionistas, empresários, profissionais liberais e acadêmicos, governos locais, agências nacionais, organizações internacionais e instituições multilaterais. De forma gradual, um sistema de apoio mais amplo surgiu de seu constante compromiso: um sistema social criado de redes de comunidades que implementam estratégias para administrar os recursos comunitários.

Estratégias orientadas às pessoas (centrando-se nos Pobres, que são os mais capazes de mudar sua própria situação):

- Escutar com atenção para compreender as necessidades e aspirações dos Pobres, criando uma atmosfera de respeito e confiança mútua e promovendo a autoestima;

- Envolver os próprios Pobres, inclusive as mulheres e os jovens, em todas as etapas do projeto: identificação das necessidades, planejamento, ução e avaliação;

- Educar, capacitar e oferecer formação espiritual a todos os participantes no projeto;

- Promover processos de aprendizagem horizontais, formando agentes multiplicadores efetivos e líderes de visão ampla na comunidade, para que sejam líderes servidores, inspirados em São Vicente;

- Construir modelos estruturais e institucionais, nos quais as comunidades possam identificar seus recursos e suas necessidades, tomar decisões bem fundadas e intercambiar informações e estratégias efetivas no interior da comunidade e entre várias comunidades;

- Promover o comprometimento nos processos políticos, através da educação dos indivíduos e das comunidades para a cidadania;

- Apoiar e respeitar os mecanismos de solidariedade que existem entre os membros da comunidade.

EXEMPLO: “I have a DREAM” (Tenho um “sonho”[7])

Desde 2002, o projeto DREAM vem sendo utado com grande êxito na África, aplicando os padrões de tratamento usados atualmente nos países desenvolvidos. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) o escolheu como caso a ser estudado para o tratamento da AIDS. Em 2004 as FIlhas da Caridade e a Comunidade de Santo Egídio pediram ao Pe. Robert P. Maloney, CM, que coordenasse o trabalho que fazem em conjunto neste projeto.

Dedicando uma atenção particular ao sofrimento das pessoas doentes, DREAM proporciona um tratamento na base de remédios de qualidade muito alta, chamado terapia tripla, a crianças e adultos que são HIV positivos. Mas seu enfoque especial é evitar a transmissão do HIV-AIDS das mães grávidas a seus bebês e manter em seguida a saúde da mãe. Noventa e oito por cento das crianças nascidas dentro do programa chegam completamente livres do HIV.

Quando Ana Maria chegou para participar no projeto DREAM, pesava só cerca de 32 esqueléticos quilos. Quando se descobriu que era soropositiva, seu marido a abandonou e seus vizinhos a isolaram. Enquanto lutava para cuidar de seus seis filhos, deu-se conta de que estava morrendo. Disse que o estigma a estava matando, tanto como a doença. Atualmente tanto ela como seus filhos estão bem. O tratamento a ajudou tanto que, apesar de os remédios se terem reduzido, seu sistema de imunidade chegou a ser quase normal. De fato, Ana Maria está cheia de vitalidade e peleja, através de sua palavra e com seu entusiasmo, para promover a luta contra a AIDS, impelida pela clara consciência de que já teria morrido, se não tivesse recebido o tratamento. Joãozinho se tornou um dos símbolos de DREAM e é um dos pacientes mais queridos. Foi a criança número mil, nascida de uma mulher com VHI positivo que recebeu o tratamento. Como muitas outras crianças nascidos no projeto DREAM antes e depois, agora o Joãozinho tem oportunidade de viver uma existência saudável. Joãozinho tem outra razão para alegrar-se quanto ao futuro: sua mãe está viva e saudável e poderá cuidar dele nos próximos anos.

DREAM tem um enfoque global, ao atender a uma série de necessidades básicas: especialmente cuidados de saúde, alimentação e educação. O projeto atualmente já se implantou em dez países africanos e há muitos outros na lista de espera...

Estratégias orientadas à participação e à solidariedade (co-responsabilidade, trabalho em redes e ação política)

- Promover a co-responsabilidade social e o trabalho em redes, conscientizando a sociedade em todos os níveis — local, nacional e internacional - para mudar as situações injustas que afetam a vida dos Pobres;

- Construir uma visão compartilhada pelos diversos participantes e tomadores de decisão: comunidades pobres, indivíduos interessados, doadores, igrejas, governos, setor privado, uniões, meios de comunicação social, organismos e redes internacionais, etc.

- Lutar, através de ações políticas, para transformar as situações injustas e conseguir um impacto positivo nas políticas sociais e nas leis;

- Ter uma atitude profética: anunciar, denunciar e comprometer-se, através do trabalho em redes, em ações de pressão para alcançar a mudança.

EXEMPLO: AIC-Madagascar. Transformar-se para transformar

A AIC de Madagascar, país de missão para o qual São Vicente de Paulo canalizou grandes esforços, até hoje mantem vivo seu carisma. Recentemente, esta associação deixou de ser uns grupos sem relação e desarticulados, até tornar-se uma importante rede nacional, parte da AIC internacional.

Hoje existem treze grupos, cujos membros são unicamente mulheres pobres que trabalham duro para aliviar a pobreza de suas próprias Famílias e de suas comunidades. O trabalho em redes é uma das Linhas Programáticas da Associação e isto permitiu que alcancemos metas que de outro modo não poderíamos alcançar. As redes internas de Madagascar se vinculam com outras redes, sobretudo com a dos Padres da Congregação da Missão e das Filhas da Caridade, que participaram na fundação e do acompanhamento da Associação no país.

A rede colabora e recebe apoio de organizações internacionais como a UNICEF e muitas outras que a ajudam com subsídios, material didático, implementos escolares e alimentos.

A AIC Madagascar foi reconhecida pela UNICEF como sócio privilegiado e as voluntárias de Madagascar foram convidadas a falar em reuniões internacionais patrocinadas por essa e por outras organizações internacionais. As voluntárias tiveram a oportunidade de falar e compartilhar sua experiência e projetos para apoiar as crianças; e seus projetos de alimentação foram escolhidos como projetos-pilotos.

Suas propostas concernentes à nutrição das crianças, aos cuidados maternais, à prevenção da violência e à paternidade responsável, foram enumerados e considerados pelos tomadores de decisão.

A capacidade de escuta, a formação contínua, a capacitação, a ação política e o trabalho em redes são a base do trabalho das voluntarias de Madagascar. Seus projetos mostram um evidente compromisso com um esforço global para erradicar a pobreza.

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Este artigo ofereceu apenas uma curta introdução sobre o tema da mudança de estruturas, junto com algumas breves descrições de projetos de mudança de estruturas. Poderíamos dizer muito mais sobre cada um dos exemplos apresentados. Inclusive, com certeza existem muitos outros projetos semelhantes na Família Vicentina. A Comissão para Promover a Mudança de Estruturas gostaria muito de ter conhcimento desses outros exemplos. Ao compartilhar essas notícias, os diferentes ramos se animarão mutuamente a trabalhar por soluções de longo alcance no serviço aos Pobres.

Esta é a oração que a Comissão formulou para a Família Vicentina, que começa a orientar mais seus esforços na linha da mudança de estruturas:

Nós vos louvamos e vos agradecemos, ó Deus, Criador do Universo.

Fizestes boas todas as coisas e nos destes a terra para que a cultivássemos.

Fazei que saibamos usar sempre agradecidamente as coisas criadas e partilhá-las generosamente com todos os necessitados.

Dai-nos criatividade ao ajudar os Pobres em suas necessidades humanas básicas.

Abri nossas mentes e nossos corações para que possamos ficar ao lado deles e ajudá-los a mudar as estruturas injustas que os mantêm na pobreza.

Fazei que sejamos irmãos e irmãs para com eles, amigos que caminham com eles em suas lutas pelos direitos humanos fundamentais.

Nós vo-lo pedimos por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

Vincentiana, Janeiro-Abril 2008, p. 72-84
(Trad. do Pe. Lauro Palú, C. M.)

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