Comissão de Jovens
Comissão de Crianças e Adolescentes
Escola de Capacitação Antônio Frederico Ozanam
Departamento de Normatização e Orientação
Agenda de 2.010 do CM Rio Preto

[Home] [Conselhos e Conf.] [Nossas Obras] [Família Vicentina] [História da SSVP] [São Vicente de Paulo] [Beato Antônio F. Ozanam] [Santa Luiza de Marilac] [Fundadores] [Artigos] [Notícias] [Anexos e Mapas] [Evangelho do dia] [Regra On line] [Inf. Participação] [Loja Virtual] [links úteis] [Contato]

CIRCULAR DO SR. LALLIER

Agosto do 1837.

RESUMO ANALÍTICO:

A visita aos pobres, obra fundamental; maneira de praticá-la.

SENHORES,

Agora, que as primeiras relações entre nós estão estabelecidas, e aprendemos a nos conhecer, pareceu-nos útil discutirmos, juntos, tanto quanto nos permitem a distância, os aperfeiçoamentos de que nossa obra é suscetível.
Poderemos assim esclarecer-nos mutuamente e habituar-nos à prática bem entendida da caridade.
O exercício da caridade, fim essencial da sociedade, pratica-se ordinariamente pela visita aos pobres.
Consideramos, bem o sabeis, como uma de nossas principais obras a visita aos pobres. É, de alguma forma, condição de existência para nós. Acreditamos que um dos laços mais fortes que nos podem unir a todos é o da comunhão de boas obras e resolvemos fazer algum bem às famílias necessitadas. Nosso Regulamento ocupa-se, em grande parte deste ponto, e nisso não devemos modificá-lo sem motivo grave. Caso as circunstâncias nos forçassem a fazê-lo, seria necessário substituir por outras obras de caridade aquela que adotamos de preferência. Assim procederam os membros da Conferência de Roma. Na impossibilidade em que os colocava a desconfiança dos habitantes, com respeito à visita ao domicilio das famílias pobres(Hoje as Conferências de Roma visitam os pobres em seu domicilio), resolveram ir aos hospitais consolar os enfermos e particularmente aos nossos compatriotas, que ai se achavam, algumas vezes, doentes e abandonados. Mas em França não existem tais dificuldades; pelo menos geralmente, a visita aos pobres pode ser adotada por todas as Conferências.
Como nos apresentamos às famílias dos pobres; atitude que devemos ter conforme são religiosas, ou não.
Em Paris, apresentamo-nos às famílias por parte de pessoas que no-la recomendaram, e que são, as mais das vezes, Irmãs de Caridade.
Dizemos que, tendo sabido, por este modo, a posição difícil em que se achavam, esperávamos poder dar-lhes alguns socorros, embora de pouco valor. Cada confrade tem liberdade de dizer, ou não, de onde vem esses socorros. Em regra, damo-los como provenientes de alguns jovens que se reúnem para praticar o bem, mas muito pouco, porque seus recursos não são grandes.
Quando a família tem religião, o conhecimento se estabelece, e o visitante não tem mais do que deixar correr a palestra; acha sempre meio de empregar algumas palavras de consolo, de animação, que não são perdidas. E, na maior parte das vezes, recebe mais proveito pelo que ouve, do que faz aproveitar pelo que diz.
Quando ignoramos quais sejam os sentimentos da família, temos o dever de nos conduzir com mais prudência e circunspeção. Tanto quanto possível, desejamos conhecer as pessoas com quem temos de tratar. Na ignorância em que estamos de seu modo de pensar, se nos deixamos levar pelas sugestões de um zelo precipitado, corremos risco de jamais ficar a par do que se passa na família. Ocultar-nos-ia seus verdadeiros sentimentos, fingiria idéias religiosas que não possui, esperando assim obter maiores socorros de nossa parte. Assim, em nossas primeiras visitas não devemos falar senão das necessidades materiais. Quando assim fazemos, com afabilidade e interesse, acabamos descobrindo toda a sua situação, e pouco a pouco nos informamos a respeito dos seus hábitos e das suas idéias. Então, o visitante sabe como deve proceder para levar a família a melhores sentimentos; conhece o forte e o fraco da praça, e com perseverança chega a tornar-se senhor da mesma, ou ao menos a enfraquecer consideravelmente a força de preconceitos absurdos e ímpios que aí se alojavam.
Polidez e atenções sem excesso de familiaridade.
Temos notado freqüentes vezes que os pobres são muito sensíveis às demonstrações de cortesia, e não descuramos deste meio de lhes ganhar a confiança. Tirar o chapéu quando se entra em sua casa, dispõe-nos em nosso favor. Gostam que se aceite a cadeira que nos oferecem, e ficam satisfeitos se mostramos interesse pelo que nos contam de suas misérias e pela narração de seus desgostos quotidianos. Por estas pequenas atenções, que nada custam, acusamos neles maior impressão e lhes conquistamos mais rapidamente a confiança, e a afeição do que pelos donativos, por abundantes que sejam. Já não somos considerados uma espécie de oficial público de uma administração, que vem fazer, semanalmente, uma distribuição regular de gêneros, mas recebem-nos como a um amigo e conselheiro, ao qual recorrem nos momentos difíceis e penosos da vida.
Todavia, é necessário, evitar cuidadosamente uma familiaridade demasiada e desmedida. De outro modo os pobres não teriam o respeito, que devem aliar à estima, por aqueles que os visitam. Acontece às vezes, que há necessidade de dar alguns conselhos e fazer algumas e severas observações. Neste caso, as palavras perderiam o prestígio e autoridade, se anteriormente nos tivéssemos excedido na familiaridade.
Nossa vida interior mede-se, muitas vezes, pela satisfação que experimentamos com a visita aos pobres.
Em geral, diligenciamos ter presente que o exemplo consegue mais, para o melhoramento de nossos semelhantes, do que muitas palavras. A doçura, as atenções, a piedade daquele que visita uma família tem um alcance maior do que suas palavras. A primeira condição imposta a todo homem que quer fazer bem aos outros é a de vigiar-se a sí mesmo e conservar-se virtuoso. Podemos verificá-lo cada dia. Quando somos menos bons, menos bem dispostos, somos também menos zelosos e menos inclinados a praticar a caridade; a visitar nossas famílias pobres; parece-nos mesmo que nisso existe uma espécie de pedra de toque, que nos leva a conhecer até que ponto cada um de nós, é agradável a Deus. Se experimentamos prazer em visitar os pobres, representantes de Jesus Cristo, se os estimamos, se sacrificamos de boa vontade um pouco de tempo para lhes ser úteis, podemos esperar ser amados por Aquele que não nos pede senão um pouco de amor, Aquele que disse que o bem que fazemos aos pobres é feito a Ele próprio. Se, ao contrario, sentimo-nos pouco desejosos de visitar as famílias, se retardamos o momento de vê-las e as visitamos às pressas e contrariados, é muitas vezes, sinal de que seria bom talvez concentrarmo-nos e renovarmos a piedade, e o fervor de nossa alma. Assim esta obra, que a nós mesmos nos impusemos livremente, é um motivo de aperfeiçoamento para nós, e um laço a mais que nos liga à virtude. A visita aos pobres, experiência prévia e necessária para julgar as questões sociais. Há, além disso, uma grande vantagem em nossos dias. Fala-se muito hoje em melhorar a sorte das classes pobres, e vemos aparecer, a este respeito, uma infinidade de sistemas, dos quais nenhum se pode por em prática, pela simples razão de que seus autores não conhecem, nem por sombra a realidade. Poderemos ser chamados, mais tarde, para dar nosso parecer sobre estas questões. E é desde já nosso dever aliviar, nos limites de nossa fortuna e recursos, os sofrimentos de nossos semelhantes. Como poderemos fazê-lo? Como expor as coisas e dar opinião com conhecimento de causa, com a segurança de uma consciência esclarecida, se não tivermos examinado e conhecido o mal que queremos curar?
Não nos cansaremos, pois, Senhores, de visitar os pobres, persuadidos de que há nisto hoje, um dos melhores meios de sermos úteis a eles e a nos próprios.
Quanto a vós, rogar-vos-emos trocar com nossas, vossas reflexões sobre este importante assunto. Sabeis agora como o compreendemos. Dizei-nos o que pensais. Para outra vez trataremos de outras questões, comunicando, uns aos outros, os poucos resultados de nossa experiência de cada dia; assim poderemos reunir, pouco a pouco, conhecimentos precisos para o exercício da caridade.

Lallier,

Secretário geral.