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CIRCULAR DO SR. LALLIER
Agosto do 1837.
RESUMO ANALÍTICO:
A visita aos pobres, obra
fundamental; maneira de praticá-la.
SENHORES,
Agora, que as primeiras relações
entre nós estão estabelecidas, e aprendemos a nos conhecer,
pareceu-nos útil discutirmos, juntos, tanto quanto nos permitem
a distância, os aperfeiçoamentos de que nossa obra é
suscetível.
Poderemos assim esclarecer-nos mutuamente
e habituar-nos à prática bem entendida da caridade.
O exercício da caridade, fim
essencial da sociedade, pratica-se ordinariamente pela visita aos pobres.
Consideramos, bem o sabeis, como uma
de nossas principais obras a visita aos pobres. É, de alguma forma,
condição de existência para nós. Acreditamos
que um dos laços mais fortes
que nos podem unir a todos é o da comunhão de boas obras
e resolvemos fazer algum bem às famílias necessitadas. Nosso
Regulamento ocupa-se, em grande parte deste ponto, e nisso não
devemos modificá-lo sem motivo grave. Caso as circunstâncias
nos forçassem a fazê-lo, seria necessário substituir
por outras obras de caridade aquela que adotamos de preferência.
Assim procederam os membros da Conferência de Roma. Na impossibilidade
em que os colocava a desconfiança dos habitantes, com respeito
à visita ao domicilio das famílias pobres(Hoje as Conferências
de Roma visitam os pobres em seu domicilio), resolveram ir aos hospitais
consolar os enfermos e particularmente aos nossos compatriotas, que ai
se achavam, algumas vezes, doentes e abandonados. Mas em França
não existem tais dificuldades; pelo menos geralmente, a visita
aos pobres pode ser adotada por todas as Conferências.
Como nos apresentamos às famílias
dos pobres; atitude que devemos ter conforme são religiosas, ou
não.
Em Paris, apresentamo-nos às
famílias por parte de pessoas que no-la recomendaram, e que são,
as mais das vezes, Irmãs de Caridade.
Dizemos que, tendo sabido, por este modo, a
posição difícil em que se achavam, esperávamos
poder dar-lhes alguns socorros, embora de pouco valor. Cada confrade tem
liberdade de dizer, ou não, de onde vem esses socorros. Em regra,
damo-los como provenientes de alguns jovens que se reúnem para
praticar o bem, mas muito pouco, porque seus recursos não são
grandes.
Quando a família tem religião,
o conhecimento se estabelece, e o visitante não tem mais do que
deixar correr a palestra; acha sempre meio de empregar algumas palavras
de consolo, de animação, que não são perdidas.
E, na maior parte das vezes, recebe mais proveito pelo que ouve, do que
faz aproveitar pelo que diz.
Quando ignoramos quais sejam os sentimentos
da família, temos o dever de nos conduzir com mais prudência
e circunspeção. Tanto quanto possível, desejamos
conhecer as pessoas com quem temos de tratar. Na ignorância em que
estamos de seu modo de pensar, se nos deixamos levar pelas sugestões
de um zelo precipitado, corremos risco de jamais ficar a par do que se
passa na família. Ocultar-nos-ia seus verdadeiros sentimentos,
fingiria idéias religiosas que não possui, esperando assim
obter maiores socorros de nossa parte. Assim, em nossas primeiras visitas
não devemos falar senão das necessidades materiais. Quando
assim fazemos, com afabilidade e interesse, acabamos descobrindo toda
a sua situação, e pouco a pouco nos informamos a respeito
dos seus hábitos e das suas idéias. Então, o visitante
sabe como deve proceder para levar a família a melhores sentimentos;
conhece o forte e o fraco da praça, e com perseverança chega
a tornar-se senhor da mesma, ou ao menos a enfraquecer consideravelmente
a força de preconceitos absurdos e ímpios que aí
se alojavam.
Polidez e atenções sem
excesso de familiaridade.
Temos notado freqüentes vezes que
os pobres são muito sensíveis às demonstrações
de cortesia, e não descuramos
deste meio de lhes ganhar a confiança. Tirar o chapéu quando
se entra em sua casa, dispõe-nos em nosso favor. Gostam que se
aceite a cadeira que nos oferecem, e ficam satisfeitos se mostramos interesse
pelo que nos contam de suas misérias e pela narração
de seus desgostos quotidianos. Por estas pequenas atenções,
que nada custam, acusamos neles maior impressão e lhes conquistamos
mais rapidamente a confiança, e a afeição do que
pelos donativos, por abundantes que sejam. Já não somos
considerados uma espécie de oficial público de uma administração,
que vem fazer, semanalmente, uma distribuição regular de
gêneros, mas recebem-nos como a um amigo e conselheiro, ao qual
recorrem nos momentos difíceis e penosos da vida.
Todavia, é necessário,
evitar cuidadosamente uma familiaridade demasiada e desmedida. De outro
modo os pobres não teriam o respeito, que devem aliar à
estima, por aqueles que os visitam. Acontece às vezes, que há
necessidade de dar alguns conselhos e fazer algumas e severas observações.
Neste caso, as palavras perderiam o prestígio e autoridade, se
anteriormente nos tivéssemos excedido na familiaridade.
Nossa vida interior mede-se, muitas
vezes, pela satisfação que experimentamos com a visita aos
pobres.
Em geral, diligenciamos ter presente
que o exemplo consegue mais, para o melhoramento de nossos semelhantes,
do que muitas palavras. A doçura, as atenções,
a piedade daquele que visita uma família tem um alcance maior do
que suas palavras. A primeira condição imposta a todo homem
que quer fazer bem aos outros é a de vigiar-se a sí mesmo
e conservar-se virtuoso. Podemos verificá-lo cada dia. Quando somos
menos bons, menos bem dispostos, somos também menos zelosos e menos
inclinados a praticar a caridade; a visitar nossas famílias pobres;
parece-nos mesmo que nisso existe uma espécie de pedra de toque,
que nos leva a conhecer até que ponto cada um de nós, é
agradável a Deus. Se experimentamos prazer em visitar os pobres,
representantes de Jesus Cristo, se os estimamos, se sacrificamos de boa
vontade um pouco de tempo para lhes ser úteis, podemos esperar
ser amados por Aquele que não nos pede senão um pouco de
amor, Aquele que disse que o bem que fazemos aos pobres é feito
a Ele próprio. Se, ao contrario, sentimo-nos pouco desejosos de
visitar as famílias, se retardamos o momento de vê-las e
as visitamos às pressas e contrariados, é muitas vezes,
sinal de que seria bom talvez concentrarmo-nos e renovarmos a piedade,
e o fervor de nossa alma. Assim esta obra, que a nós mesmos nos
impusemos livremente, é um motivo de aperfeiçoamento para
nós, e um laço a mais que nos liga à virtude. A
visita aos pobres, experiência prévia e necessária
para julgar as questões sociais.
Há, além disso, uma grande vantagem em nossos dias. Fala-se
muito hoje em melhorar a sorte das classes pobres, e vemos aparecer, a
este respeito, uma infinidade de sistemas, dos quais nenhum se pode por
em prática, pela simples razão de que seus autores não
conhecem, nem por sombra a realidade. Poderemos ser chamados, mais tarde,
para dar nosso parecer sobre estas questões. E é desde já
nosso dever aliviar, nos limites de nossa fortuna e recursos, os sofrimentos
de nossos semelhantes. Como poderemos fazê-lo? Como expor as coisas
e dar opinião com conhecimento de causa, com a segurança
de uma consciência esclarecida, se não tivermos examinado
e conhecido o mal que queremos curar?
Não nos cansaremos, pois, Senhores,
de visitar os pobres, persuadidos de que há nisto hoje, um dos
melhores meios de sermos úteis a eles e a nos próprios.
Quanto a vós, rogar-vos-emos
trocar com nossas, vossas reflexões sobre este importante assunto.
Sabeis agora como o compreendemos. Dizei-nos o que pensais. Para outra
vez trataremos de outras questões, comunicando, uns aos outros,
os poucos resultados de nossa experiência de cada dia; assim poderemos
reunir, pouco a pouco, conhecimentos precisos para o exercício
da caridade.
Lallier,
Secretário geral.
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